Romance dos Ermos perdidos

Dos trechos que me consomem, um caso:
gestos sérios,
lábios sem sorriso,
olhares mortos.

Cada palavra se faz trecho
De um poema sem meio,
um medo sem receio
das palavras que me escapam em feixo.

É uma dor já conhecida, a da palavra,
lâmina que me acostumei a penetrar
infinitivamente em minhas carnes.
Recurso indevido que usufruo, lavra
minhas vísceras até neles chegar,
nos pés dos entendimentos leves.

Saber, me pergunto, é morrer
pouco a pouco para se ter uma resposta pronta?
Que dúvidas movem esses lábios?
Como mover aqueles olhos em pergunta
e fazer dos gestos reviver?
A nós, néscios, respostas são mistérios.

O encanto dos trechos
de narrativas que conhecemos,
consumidas em jornais descartáveis,
confundidas a pensamentos inviáveis
para se pensar na vida de antes,
ou na vida de depois,
é realidade chã do tempo dos bois
que fala sobre tempos nada distantes.

Isso, no entanto,
são palavras que me consomem,
vários casos bifurcados de um poema
épico fracassado pelo homem
sério, severo e autômato,
um Romance traduzido em irresoluto dilema.

Marcos Vinicius Caetano da Silva
26/11/2016 – 02h22

Português Dominical

Hoje me veio as saudades!
Umas do que não fiz,
outras do que não vivi.
Ainda, das que deveria estar fazendo!

Saudades são muitas palavras
das quais ora me sobram,
ora me faltam ou me sobressaltam
dos motivos; os quais, muitos!

Ainda ontem, hoje ainda incompleto,
futuro que não me veio e me resta passo
do pretérito esquecimento inacabado, faço
de rima em verso verbos de efeito estático.

Eis que a ação desses tempos desaba sobre mim,
palavra por palavra,
verso por verso,
tijolos de uma construção barata (dizem os críticos),
sujeitos às poucas palavras que lhes sujeitam.

Verbos esses que ligam, verbos que se fazem palavras,
sons que se fazem poesia,
escrita aos olhos cansados de um espectador
por quem passam desapercebidos,
podem ser e estar em ação, ou não?

Pode ser verbo de um dicionário velho,
considerado por uns, odiado por semanticistas,
de velhas manias empoeiradas;
as palavras,
as mesmas que revestem um poema velho e inacabado,
cujas cores pintam as palavras de um velho poeta
estranho aos novos tempos e significados,
mas de cujo entendimento resta somente
saudades.

21h46 – Marcos Vinicius Caetano da Silva
06/12/2015

Versos Noturnos

Imagino eu

Quantos boêmios escutam,

Quantos sonâmbulos sussuram

e quantos despertos sobraram

acordados em breu

na calada da noite de hoje.

Pode contar quantos fazem amor,

quantas crianças dormem com temor

E quantos varam a noite no labor

da proteção da casa,

da vigia de outras partes,

Dos aviões no céu,

da bolsa, numerosos os valores

que não escapam aos jornais, notívagos,

os leiteiros despercebidos,

dos carros, as batidas trágicas

e os versos

que somente me deixei

escrever prateados

com a lua rabiscada.

Henrique Medeiros

01h48 – 09/10/2015

Poema triangular

Ainda penso
que o melhor de Minas é o pão de queijo,
mas ainda tem o leite,
o sorvete,
os sorrisos e falares cortados,
acrescidos de diminutivos carinhosos,
os sorrateiros abraços.

Lembro,
ao olhar o campestre luar
estrelado desta terra,
meu vínculo,
a terra,
alimento de meu espírito,
cujas raízes mais profundas,
até onde as luzes inventadas
pelo homem,
em alta velocidade,
podem com algum sucesso
alcançar.
Minas, em tudo, é bão dimais!

Marcos Vinicius Caetano da Silva – 16/05/2015 – 01h07

MELANCOLIA

Define a saudade do que tive
em sonho imerso,
acordado em minha própria loucura
ou em mera alucinação submerso
do que pensava figura
sólida, desejo que vive
dum passado que havia por sobrepor
em lugar de minha ardente dor.

memória
acordada em nostálgica dor
de incompleta trama, amor
guardado em irrealizável palavra,
tempo que tivemos
e do qual sentimos
pobre rima como escapatória.

poema mal planejado,
versos ao vento jogados,
quando o mar jazia parado
e Éolo descansava em prados.

Zéfiro, pra onde vou?
Clio, como devo compor?
A Euterpe e Erato vendi meu amor
por ferramenta que guarda de Hefesto o lavor.

tragédia incômoda:
divinos desígnios, humanos desejos.
uma sede romântica,
outra cede por meios.

Marcos Vinicius Caetano da Silva
28/05/2015 – 21h04

Que hora é essa?

Vinte e duas horas. Lá estava eu, sentado numa estação vazia por cinco pessoas distantes de mim, esperando o metrô. O espaço que caminhei era imenso de onde estava agora desde que adentrei a estação e me dirigi ao primeiro lugar vazio que avistei. As luzes ofuscam todo e qualquer pensamento exceto o automático instinto do retorno ao lar.

Antes de sentar no único lugar vazio que meus olhos cansados puderam encontrar – contra a direção em que o trem seguia -, fiquei deslubrado com o ar jovial do homem diante de mim. Seu olhar livre passeava o nada e, de repente, encontrou o meu olhar. Desviei. Olhei a janela, a porta, a senhora que tentava se segurar com o metrô em movimento. Depois, procurando uma brecha, vi que ele estava olhando para o nada novamente. Apreciei novamente a sua beleza física e me perguntei no que ele estaria pensando. Seu olhar parecia revelar as palavras, os sentidos os pensamentos mais íntim… e ele me encara novamente!

Desviei antes que pudesse pensar em encará-lo novamente. Desta vez olho para a porta cujo visor de vidro refletia para a sua figura. Me acalmo por pensar que posso voltar a observá-lo. Ele olha a sua volta, passa mudar de posição e algumas vezes desapercebidamente encontra o meu olhar refletido com o dele, mas ainda com incerteza de que estou mesmo olhando para ele. Volto a olhar para o mesmo e ele revela os fones de ouvido que o salvaria do tédio naquele momento!

Ao escutar a música, a qual estava curioso para saber qual seria, ele se contorceu, encostou sua cabeça à parede do trem e fechou os olhos. Olho para ele feliz porque está dormindo, prestes a encontrar os laços acolhedores dos lençóis de sua casa. Desviei o olhar! O rapaz abrira os olhos repentinuamente, como se quisesse descobrir quem lhe roubara o sono!

Voltei a olhá-lo enquanto seu olhar passeava o pequeno vagão em que estávamos, os trabalhadores cansados retornando para suas casas, a janela que lentamente revelava uma paisagem móvel. Nossos olhares se encontraram, e passamos a nos impor. Nenhuma reação, sorriso, raiva ou coisa parecida fora esboçada. Uma análise recíproca fora feita. Não sabia eu sua conclusão, quem dirá a minha própria?!

O trem se enchera na estação Shopping. O fim de ano chegara com a multidão a lotar aquele pequeno espaço. O seu reflexo fora interrompido pelas costas de uma moça que se escorara em um dos canos que proporcionam equilíbrio aos passageiros. Algumas vezes o rapaz ainda se revirava, e podia eu ainda observar algumas partes suas, mas não todas. Desta vez não via mais olhares, encaradas ou buscas de olhares perdidos. Seus olhos se fecharam com a música que nunca poderei ouvir naquele vagão de ensurdecedor silêncio coletivo. Do pouco que pude vê-lo, restou-me isso.

Nas proximidades da estação Praça do Relógio o rapaz se levantara. Antes de encarar a porta que faria com que nunca mais nos reconhecéssemos naquele tempo inalcançável e inarreatável, ele olha para mim ao caminhar em direção à saída. Olho uma última vez pensando numa conversa que não tive, em sua pessoa ainda indesejadamente desconhecida e numa timidez minha ainda não superada, refletida num reflexo em que nos analisamos.

O sinal toca e as portas se abrem. “Vinte e três horas”, aponta o relógio, que me lembra restar ainda o caminho para casa. Encaro o relógio que, apesar da claridade, ainda se faz um modo impossível de se ver o meu reflexo.

Gilvan Alburqueque

03h22 – 31 de dezembro de 2014.

Apócope Chuvoso

Quem me dera meu piano tivesse todas as teclas,
carregasse todas as idéias,
toda a musicalidade que lhe é própria!

Ó, tempo!
Me tire essa estranha vontade
de a tristes canções me colocar em pranto!
Dê-me, por favor, uma nova música,
cuja melodia me faça ter um novo sorriso:
mais vívido e imponente!

Eis que o piano troveja
os estridentes tons de uma nova canção.
Ferozes e truculentos, os sons tropeçam,
talvez tocados pelo ar esperançoso e trabalhado,
provocados por uma diferente melodia
não estranha aos meus ouvidos.
Muito menos aos seus.

Tecla por tecla, os sons trafegam pelo ar escorregadio
das tristes e furiosas notas musicais.
Concerto este provocado, consertemos.
Contento eu com suas letras, espero,
a preencher os espaços vazios de minha canção.

Interminável composição a que me submeto
subindo demasiadamente o tom, violentamente baixando
ao ritmo incansável e frenético de minha ânsia.
À produção surda, perco a abertura.
Às notas que possuo, lhes atribuo harmonia.
À letra que me falta, a chamo poesia
na medida em que me ascende o calor de sua visão.
Na falta da lira, perco a maestria
de lhe fazer o mais belo ato em canção.

Enquanto os dedos puderem tocar,
compondo permanecerei. Incansavelmente.
Mesmo calado, gritando, agonizando, chorando, tremendo.
Temo. Interminável canção, temo.
Alcançar-te-ei.

O barulho da chuva sugere uma nova música invadindo os ouvidos,
dando uma coloração mais reluzente às coisas,
mais movimento aos simples gestos, mais significados para o óbvio.

Num farfalhar repentínuo de teclas o piano se cala,
esperando a próxima canção a ser entoada
enquanto o barulho da chuva
concede a melodia do aguardo.

08h32 – 28/11/2011
Marcos Vinicius Caetano da Silva

Notas de Papel

Me causa prazer extremo
executar as notas que nunca pude
por incapacidade singular em momento
de vida terrena impune.

Executo meus versos
em impotência ao alheio,
estendo à palavra os meus atos
possíveis em relação ao receio.

Receio sempre fazer a mesma coisa,
receio não ter a mesma força
ao desempenhar o sempre,
massa de ação frequente
modeladora do pensamento incomum.

Receio ações que se nominalizem,
perdidas entre a tantos nomes,
inclusive ao meu,
e às circunstâncias vazias
de um efêmero dia.

Um poeta se relê fingidor,
sagaz imitador de persona portuguesa
mas que conserva em su’alma singeleza
de cada dia e gestos ignorados
e sua dor.

O poeta é um leitor
das coisas que não lembrarão mais.
Um poeta é o escritor da sombra oculta da árvore frondosa
que caminha o dia pela grama seca,
ansiosa pela sombra respirar.

Um poeta,
apesar de não lembrarem mais,
escreve um pouco de tudo,
e até de quem não o leu jamais!

Marcos Vinicius Caetano da Silva – 12h44 – 11/11/2014

O tímido poeta no Lambeth Walk

Foi este o dia que encontrei o tal poeta de que Daniel falara, um tal Marcos Vinícius Caetano da Silva. Se tratava de um rapaz com ar infantil que viera apresentar um artigo na King’s College. Fui a ter com este no Café Nero às 20h, mas logo lembrei que não se tratava de um inglês pontual! O rapaz, além de atrasado, se esforçava para cobrir sua timidez por exagerada abertura ao próximo. No caso, eu. Fingi intimidade na brincadeira, mas não deixei-me levar.

O rapaz não aparentava ter qualquer traço de sofrimento amoroso pelo ar de graça com que tratava a mim e aos empregados do café. Posso não ter percebido nada, exceto uma grande fome se em consideração pelo tamanho de seus pedidos! (risos) Uma torta branca com merengue chegou, e seus olhos e fala pareceram-me mudos. Não enxerguei na torta aquilo que ele estava lendo! Decidi acordá-lo com outra pergunta, referente à tendência lírico-amorosa de sua poesia. Perguntei-lhe se se tratava de algum amor em particular, e ele hesitou em responder. Depois de uma pausa, falou se tratar de um amor irrecuperável cujo único diagnóstico que percebeu seria escrever. Fiquei surpreso com o tratamento que dá à sua poesia, algo que seja mais necessário a ele do que a mim, que somente leio e aprecio como se fosse endereçada a mim!

Como necessitava de um passeio naquela agradável noite, eu o levei até sua hospedaria em Lambeth Walk. Infelizmente o parque de Lambeth Walk estava fechado, então tivemos de contornar com as pequenas avenidas industriais abaixo da linha férrea. A boemia da noite tomou-nos de acordo com a conversa, e lembrei-me de um pub com uma boa cerveja nas proximidades. Sugeri que fossemos lá e felizmente meu convidado ainda dispunha de energias para meu pedido tão egoísta. Rimos muito tratando de alguns modos geniosos, para não falar “excêntricos”, de Daniel Camargos, dos projetos que não deram nada certo na tão planejada Brasília, e sobre algumas diferenças entre os ingleses e os franceses. Nas palavras de Marcos, se o Louvre os compensa, certamente nosso requinte tem grau certeiro!

– Talvez em metade de mim, mas a outra concorda com isso! – respondi.

Deixei-o na hospedaria na esperança de um dia encontrá-lo novamente em Londres e tomei rumo ao meu apartamento com uma garrafa de Guinness na mão. Qual seria o sentido de sua poesia? Muitas pessoas estão a falar, mas quem achará o correto? Alguns professores universitários pensam se tratar de uma nova poesia brasileira. Penso que tal geração já passou, mas eles insistem em declarar o mesmo. Enquanto os tempos não saem dos vultos, tomo mais um gole da garrafa.

20/08/2014 – 00h44
Alexandre Rodrigues